12.10.04

O frontispício gravado a sangue e fogo. Olho para cima e leio
abandonai toda a esperança vós que aqui entrardes.
Na primeira página o nome
o meu nome
a lembrar-me de ti, do passado. É estranho como um livro pode ser mais seguro que um cofre e mais livre que uma janela aberta.
A sorte não existe. Muito menos no amor do que na vida. Vou dizer outra vez. A sorte não existe. E contudo procuramos um pelo outro como se de sorte se tratasse, como se um tam-tam ecoasse ao longe a chamar, como se para lá das lianas e dos macacos que guincham os seus gritos de dominação e das catatuas
araras
catatuas de crista sioux que gritam
procura-me
houvesse um oásis, ou um suave odor soporífero a veludos florestais e madeiras macias como sopros, narguilés submersos numa tranquilidade de fundos marinhos, a chamar
procura-me
como se por sorte fosse possível encontrar o meu nome
o teu nome
o meu nome numa sucessão de páginas escritas por uma mão que já não sucede mover-se, uma mão que
cala-te
uma mão que talvez ainda possa vir a mover-se, uma mão que poderá ainda escrever palavras como coração e pudera e sempre, numa profundidade de abismos oceânicos onde repousam navios que já não sucede moverem-se, navios que soam sirenes de nevoeiro como tam-tams a chamar
procura-me
como se a sorte existisse e tudo fosse mais que vaguear silente numa tranquilidade de veludos marinhos.
A cada página encontro personagens cujos olhos de chama trespassam o tempo e desvendam tempestades de epopeias passadas, marinheiros analfabetos que nunca leram Melville nem Hemingway mas cujos olhos de chama trespassam o tempo perguntando-me se vim para os resgatar ou para
fustigá-los
eu o dos olhos de chama eu personagem que trespassa o tempo olhando para o passado ouvindo-te dizer
procura-me
eu navio repousando em fundos oceânicos aonde não chega a luz, aonde nunca chegou a luz porque lá em cima é sempre tempestade, tocando a sirene no nevoeiro enquanto marinheiros com olhos como destinos me dizem
abandonai toda a esperança vós que aqui entrardes.

11.10.04

O método. Sempre o método. A frase solta, espontânea, a ideia condensada e livre, o espírito puro a libertar-se no papel, nada disso existe. Tudo é método. O discurso do método ou o método do discurso.
As luzes acendem-se iluminando uma figura curvada. O palco é do discurso. Sobriamente sombrio, sombriamente palpável. Esticar o indicador e atirar
quando foi a última vez que viste o Bem
para a plateia invisível.

8.10.04

A velha pousou o crochet, levantou-se da cadeira e foi até à janela. As figuras que passavam em baixo, difusas através do vidro molhado pela chuva e pelo vento, lembravam desenhos de um livro da sua infância. O gato ocupou o calor que ficara vago.
O relâmpago ocasional não a distraía do seu propósito. A busca de uma razão para estar ali terminaria hoje. Pela memória passaram-lhe em segundo plano ideias de padrões, para fazer ora com esta agulha, ora com aquela determinada linha. A arte entranha-se no artesão como um programa em paralelo.
"No - hay - banda."
O pensamento fugiu-lhe para uma mulher em cima de um palco. "Donde vem isto?"
Mãe?
Os lábios da mulher articulavam os sons que lhe evocava a visão. Quem lhe acenava da rua, por baixo de um guarda-chuva, poderia ser a sua mãe?
O passar do tempo não atenua certas dores. Antes as destila em melancolia, num processo longo, coberto de heras e entretecido entre dias de sol e noites de nevoeiro húmidas como caves. A silhueta da mãe aparecia-lhe sobejas vezes enquanto adormecia, durante a meia vigília que precede o sono. Aquela personagem que por vezes tinha o seu próprio rosto, outras vezes o da avó paterna, mas a que sempre chamava mãe. A voz límpida e sempre amorosa da mãe era a sua lembrança mais rica, a que sempre voltava, embora soubesse que a mesma voz tinha ditado ao destino a sua maior perda. Em criança sabia que era cantora em bares e sempre havia desejado acompanhá-la aos ensaios, mas a avó nunca havia permitido
não são lugares para crianças
pois não eram lugares para crianças, e de qualquer modo o fumo do tabaco fazia-lhe arder os olhos. A mãe não voltou a casa uma madrugada
a vida prega partidas a todos
e a vida continuou porque
a vida continua
tinha de continuar, é assim, é o destino, temos de nos conformar.
E todavia a vida não continuou como dantes, porque agora ouvia a voz da mãe em pré-sonhos e não ao deitar
boa noite, dorme bem
como na véspera da noite em que a
orquestra
não
apareceu.

O lindo gato desenrolara o novelo.
Abriu a janela.
Mamã!
Posso descer? perguntou à avó que tricotava. Sem esperar pela resposta correu para as escadas ao encontro da mãe. A velha pousou o crochet, levantou-se da cadeira e foi até à janela. O gato ocupou o calor que ficara vago.

6.10.04

Hoje os meus passos hão-de levar-me aonde nenhum pássaro canta nem nenhum artesão dá forma às formas do amor. Este será o dia da amargura e do ócio, do pão ásimo e da água salobra. E tudo o que nascer daqui será melancolia. Os poetas escrevem
quantas serão as mulheres por terra?
poemas de embalar mentes frágeis, percorrem milhas na terra de ninguém em busca de proezas estilísticas e
veja-se bem
a sonoridade certa. Daqui não levarão nada a não ser ferrugem e manchas em ocre-cinza, carreiros que há muito os passos abandonaram, sementes cuja alma morreu
que giro sementes cuja alma morreu
sem frutificar. Daí que me doa a cabeça de tentar não pensar na morte e deixe a janela aberta na esperança de ouvir cantar uma ave ou uma mulher, nem que seja um rouxinol a cantar perdidamente, nem que seja uma rola a arrulhar à tarde depois da chuva parar. Se a minha filha alguma vez nascer há-de ser como
que disparate cala-te
um rouxinol numa árvore do outro lado da rua, nem que berre uiiinnnn a noite toda, nem que me faça perder a noite levantado. Daí que me arranque os cabelos a pensar que lindo seria se tu fosses outra, que lindo se pudéssemos
cala-te
continuar a viver de janela fechada por não ser preciso ficar à espera de ouvir uiiinnnn da árvore do outro lado da rua, por não ser preciso deixar uma janela aberta.