6.10.04

Hoje os meus passos hão-de levar-me aonde nenhum pássaro canta nem nenhum artesão dá forma às formas do amor. Este será o dia da amargura e do ócio, do pão ásimo e da água salobra. E tudo o que nascer daqui será melancolia. Os poetas escrevem
quantas serão as mulheres por terra?
poemas de embalar mentes frágeis, percorrem milhas na terra de ninguém em busca de proezas estilísticas e
veja-se bem
a sonoridade certa. Daqui não levarão nada a não ser ferrugem e manchas em ocre-cinza, carreiros que há muito os passos abandonaram, sementes cuja alma morreu
que giro sementes cuja alma morreu
sem frutificar. Daí que me doa a cabeça de tentar não pensar na morte e deixe a janela aberta na esperança de ouvir cantar uma ave ou uma mulher, nem que seja um rouxinol a cantar perdidamente, nem que seja uma rola a arrulhar à tarde depois da chuva parar. Se a minha filha alguma vez nascer há-de ser como
que disparate cala-te
um rouxinol numa árvore do outro lado da rua, nem que berre uiiinnnn a noite toda, nem que me faça perder a noite levantado. Daí que me arranque os cabelos a pensar que lindo seria se tu fosses outra, que lindo se pudéssemos
cala-te
continuar a viver de janela fechada por não ser preciso ficar à espera de ouvir uiiinnnn da árvore do outro lado da rua, por não ser preciso deixar uma janela aberta.