O som do clarim tornava-se cada vez mais claro à medida que nos aproximávamos um do outro. Ao tocar os seus lábios ouvi a mais bela marcha fúnebre. Ela disse: Porquê ? Respondi: A vida que escorre em mim não substitui o conhecimento das tuas certezas.
Nesse momento o céu ficou roxo e caiu granizo. Os elementos não faziam mais do que espelhar os meus sentimentos.
Não é sempre assim ? perguntou.
Não. Por vezes há um odor a limão a espalhar-se pelo compartimento. Há senhoras vestidas de folhos que tomam chá e trocam banalidades, como as mulheres sempre fizeram. Na minha cosmogonia não há tartarugas gigantes a transportarem o mundo sobre a carapaça. Há senhoras de ar vagamente etéreo que trocam banalidades enquanto tomam chá, e o mundo são bocados disformes unidos por fios tecidos de banalidades frívolas.
-Amei-te outrora, disse ela.
Quando a lágrima lhe chegou ao queixo já o veneno começava a surtir efeito. Senti o estômago em convulsões. A brasa que me ardia na base da nuca tornava tudo mais nítido.
A mulher que esperava pelo marido há dois dias no porto de Okinawa virou as costas ao mar e partiu. Nesse instante, a bordo do H.M.S. Eternity, fundeado no mesmo porto, iniciava-se a cerimónia fúnebre de Walter E. E. Elliot, marinheiro oriundo de Belfast, encontrado enforcado após um dia de licença. O camponês que o encontrou teve o cuidado de remover da sua camisa uma carta, escrita a tinta sépia pelo punho do seu pai, anunciando-lhe a intenção de pôr fim à vida. A versão que o camponês contou ao seu próprio filho, anos mais tarde, foi que uma mulher de traços ocidentais lhe tinha aparecido numa noite em que regressava a casa e ordenado que tirasse a carta, em troca de alguns reais de ouro, e mantivesse segredo. O camponês queixou-se de que só a custo pôde tirar proveito da sua paga, pois teve de trocar as moedas por fidúcia corrente junto das autoridades imperiais e ficou retido vários dias por não conseguir explicar como se encontrava na posse de moeda gravada com a efígie de um monarca estrangeiro morto há mais de cem anos.
Ao ser informado destes factos o comandante do Eternity sorriu. Invadiu-o a recordação de um odor a limão espalhando-se numa saleta do Yorkshire. -Quem sabe o que se passa do outro lado do oceano, my dear, replicava uma das senhoras. -Só deus sabe, com efeito... mas não seria maravilhoso se pudéssemos, de alguma forma, influenciar o que sucede, como malhas de uma renda infinitamente tecida, sem princípio nem fim ? Perto, entre miniaturas de navios, um menino e uma menina brincavam com duas figuras de madeira. O, I love you so much I could die! dizia a figurinha da menina.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home