16.12.04

Olho para o espelho.
Olho para lá do espelho e não vejo mais que ruas nocturnas. Luzes nubladas pelo nevoeiro de uma Lisboa que foi a da minha infância, postes curvados pela idade com fachos amarelos nas extremidades. O vidro traseiro do carro meio embaciado porque metade da resistência está morta.
Olho para o espelho e sou visto por luzes amarelas nas extremidades murchas dos postes de iluminação das estradas. Metade desta cidade está morta como a resistência do vidro traseiro do carro, e a luz amarela não chega à outra metade. Mas chega-me a mim através do espelho murmurando
-salva-nos
(fantasmas condenados murmurando em luz amarela através do nevoeiro).
E eu queria que houvesse tempestade e os ventos uivassem e fizessem abanar as árvores seminuas da praça de que não quero dizer o nome, queria que a chuva caísse copiosamente conjurando trovoada porque assim seria mais fácil fazer de mim herói romântico, a minha capa negra poderia ocultar-me dos sussurros que chegam através do nevoeiro
-liberta-nos
e poderia viajar até promontórios onde o mar se atira contra as rochas com a força do cataclismo e aonde o diabo vem nas noites de lua nova para regatear as almas dos desesperados
-tu já foste ao promontório?
e nessa finisterra assinar em sangue os meus últimos desejos
(assinado em sangue pelo punho de fulano de tal, declaro solenemente ser esta a minha derradeira vontade, ser sepultado na ilha que fica três milhas a oeste ao largo deste penhasco e que adquiri com o produto da venda das jóias de minha mãe, que o meu epitáfio seja "enfim, paz", que os meus despojos mortais sejam atirados ao mar pelo lado norte da ilha no último dia do vigésimo ano após a minha passagem e não partilhem nunca de outra companhia que não a dos albatrozes, faça-se executar etc etc)
e ao assiná-lo ver surgir uma figura de olhos amarelos pretendendo transaccionar algo a que não dou muito valor, e ao distinguir através da bruma um brilho amarelo no seu olhar ver o céu rasgado por raios e ser transportado para outro lugar, outro lugar qualquer que não fosse este veículo iluminado pelas luzes amarelas dos postes de iluminação pública.

Aqui não há mar furioso nem as rajadas de nortada são um receio que brandamos com raiva surda aos forasteiros nas noites de Inverno. Através do nevoeiro sou visto por olhos amarelos escondidos atrás de espelhos que se curvam sobre si próprios, olhos de personagens que percorrem caminhos de pó e espinhos para se encontrarem com o diabo à beira do promontório em noites sem luar atraindo-me, regateando-me, flagelando-me, retirando-me do veículo em que me encontro e de onde se vêem luzes de sódio pela metade do vidro traseiro que não está embaciada porque a outra metade da resistência está morta, e a terra não treme nem soam trovões, está tudo calmo quando leio no mármore "enfim, paz" antes de suceder deslizar para o mar pelo lado norte da ilha, o lado frio, o lado preferido dos albatrozes.

2 Comments:

Blogger Black Rider said...

Obrigado por me dares a conhecer o teu blog. As palavras que sentes, ou os sentimentos que trazes através delas, consigo-as ver como sendo reais, mesmo que, muitas vezes, com algo de etéreo e inatingível. Mas não será mesmo dessa essência que, também, foram "feitos" os espelhos?
Muito forte.
É óbvio que voltarei.

9:02 p.m.  
Blogger DL said...

Este comentário foi removido pelo autor.

9:05 a.m.  

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