8.10.04

A velha pousou o crochet, levantou-se da cadeira e foi até à janela. As figuras que passavam em baixo, difusas através do vidro molhado pela chuva e pelo vento, lembravam desenhos de um livro da sua infância. O gato ocupou o calor que ficara vago.
O relâmpago ocasional não a distraía do seu propósito. A busca de uma razão para estar ali terminaria hoje. Pela memória passaram-lhe em segundo plano ideias de padrões, para fazer ora com esta agulha, ora com aquela determinada linha. A arte entranha-se no artesão como um programa em paralelo.
"No - hay - banda."
O pensamento fugiu-lhe para uma mulher em cima de um palco. "Donde vem isto?"
Mãe?
Os lábios da mulher articulavam os sons que lhe evocava a visão. Quem lhe acenava da rua, por baixo de um guarda-chuva, poderia ser a sua mãe?
O passar do tempo não atenua certas dores. Antes as destila em melancolia, num processo longo, coberto de heras e entretecido entre dias de sol e noites de nevoeiro húmidas como caves. A silhueta da mãe aparecia-lhe sobejas vezes enquanto adormecia, durante a meia vigília que precede o sono. Aquela personagem que por vezes tinha o seu próprio rosto, outras vezes o da avó paterna, mas a que sempre chamava mãe. A voz límpida e sempre amorosa da mãe era a sua lembrança mais rica, a que sempre voltava, embora soubesse que a mesma voz tinha ditado ao destino a sua maior perda. Em criança sabia que era cantora em bares e sempre havia desejado acompanhá-la aos ensaios, mas a avó nunca havia permitido
não são lugares para crianças
pois não eram lugares para crianças, e de qualquer modo o fumo do tabaco fazia-lhe arder os olhos. A mãe não voltou a casa uma madrugada
a vida prega partidas a todos
e a vida continuou porque
a vida continua
tinha de continuar, é assim, é o destino, temos de nos conformar.
E todavia a vida não continuou como dantes, porque agora ouvia a voz da mãe em pré-sonhos e não ao deitar
boa noite, dorme bem
como na véspera da noite em que a
orquestra
não
apareceu.

O lindo gato desenrolara o novelo.
Abriu a janela.
Mamã!
Posso descer? perguntou à avó que tricotava. Sem esperar pela resposta correu para as escadas ao encontro da mãe. A velha pousou o crochet, levantou-se da cadeira e foi até à janela. O gato ocupou o calor que ficara vago.