Alguns pensam partir para se encontrarem. Não desejo partir, prefiro ficar. Não desejo encontrar-me. Conheço o caminho. Simplesmente não desejo percorrê-lo. A tragédia povoa, e não de lágrimas, mas de gargalhadas, a beira dessa estrada. Nada supera a doce benção da ignorância das nossas próprias limitações.
31.3.04
22.3.04
Ao voltar a casa, isto:
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Trinta mil passos a pé, um passeio pela Via Láctea.
O som de uma guitarra na casa ao lado.
O fumo do teu cigarro.
Trinta mil passos a pé e a guitarra a tocar Tom Waits.
Mil e uma mulheres a dançar ao som dos Doors.
As pegadas de Armstrong no Mar da Tranquilidade.
Trinta mil passos a pé e um narguilé em Marraquexe.
O Velo de Ouro de Jasão.
Os despojos do Titanic debaixo do mar.
Trinta mil toques a rebate, trinta mil vezes trinta mil mortos.
Mais três mil caídos em combate singular.
Aonde iremos agora buscar as pérolas da Atlântida ?
De que palavras serão feitas as nossas narrativas ?
Essas histórias há muito que acabaram.
E os deuses mortos já não cantam com vozes de cristal e trovão.
Nem as nossas proas se apontam para as estrelas.
Há sempre um eco:
O fogo de Arquimedes.
Trirremes aportados em Siracusa.
A queda de um muro.
As palavras não acabaram, calaram-se.
Em cada uma há trinta mil passos a pé a ouvir a canção das sereias.
E elas dizem la lala la lala la lala la...
Elas dizem la lala la lala la lala la.
5.3.04
À saída do prédio, parecia ir ser um dia normal. E foi.
Poucas coisas fora da normalidade poderiam ter-se passado naquele dia. Nenhumas se passaram.
Ao sair do prédio, nada me fazia crer que iria ter um dia diferente. Foi exactamente isso que se passou.
Uma previsão dos acontecimentos para aquele dia não poderia nunca ter incluído acontecimentos inusitados. Uma tal previsão, caso tivesse sido feita, ter-se-ia revelado correcta.
Ao sair do prédio, não pensei que o dia seria preenchido por eventos imprevistos. Caso o tivesse feito, a realidade ter-me-ia mostrado o quanto estava enganado.
Saí. Saímos. Nada se passou que pudesse ter atraído sobre mim, digo, sobre nós, a atenção de uma reminiscência futura.
O futuro é feito de coisas em que não nos ocorre pensar no presente. Ao sair do prédio naquela manhã, algo de inesperado poderia ter colocado um post-it na minha memória. Na nossa memória.
Na tua memória.
No futuro, um post-it posterior poderia descolar-se (talvez consequência de uma débil corrente de ar como quase sempre acontece; ao voltar a colar já não ficaria na mesma posição) descobrindo uma ponta do primeiro. E eu lembrar-me-ia do dia em que saí do prédio e dei de caras com o, tu lembrar-te-ias do dia em que demos de caras com o, não, o pastor alemão assustou-se e ladrou ao, (logo aquele bicho tão manso, ainda um cachorro). Pouco importa. Naquela manhã ia a sair do prédio (ias a sair, saíste primeiro, lembro-me) e poderia ter sucedido algo de bizarro. Nada se passou que pudesse ter atraído uma atenção futura (o momento em que o pestanejar demora 300 milissegundos a mais ou a menos do que a média, o que me levou a pensar nisto ? a cabeça a rodar sobre o pescoço numa trajectória oblíqua, o corpo sem guia enquanto a reminiscência toma forma). Descer as escadas. Puxar o fecho do casaco. Sair do prédio. Verificar inconscientemente que ninguém vem a dois passos de sair ou entrar. Algo digno de nota poderia ter ocorrido.
Tudo foi igual a sempre.
Ah, sim, houve aquele cão (era um dobermann ?) que ladrou ao, Pois foi. Foi no dia em que saí, saíste, a manhã em que saímos do prédio sem dizer,
Era um pastor alemão (o pequeno).
