Dentro do sonho:
Que importa se uma folha cai
se cá dentro é sempre Outono
e todas as folhas estão mortas.
Os ramos quebraram-se e as raízes secaram.
(a terra gretada)
Frente ao lago:
Trouxeram-me o corpo e o cálice,
Deram-me a mão, a rede e o arpão.
Mas não há-de ser por rede ou por arpão.
(as pálpebras dela, os lábios e as unhas haviam ganho uma tonalidade verde acastanhada e as orelhas começavam a parecer-se com folhas)
Depois vieram as bailarinas.
Traziam grinaldas nos cabelos e ouro nos pés.
Ouvia música, que vinha delas.
Quando os corvos passaram um deles sussurrou-me que havia de ser o flautista. Só então vi o flautista.
(os cabelos haviam passado de pretos a verde escuros, com rebentos de hera verde-brancos que cresciam à volta do pescoço alongado)
No fim vieram os centauros. A rede transformou-se em árvore e a sua sombra projectou-se sobre eles. Mergulharam no lago e desapareceram.
O flautista disse: recolhe a água num cálice e verte-a sobre o corpo. Golpeia a árvore com o arpão e lambe a seiva. O corpo há-de curar-se e a árvore há-de viver.
(agora via através dele e das bailarinas. Depois, só a música e uma névoa dourada indiciavam a sua presença evanescente)
Esvaziei o cálice sobre ela e no fim o metal derreteu-se, caindo-lhe na fronte em forma de tiara. Mas ao espetar o arpão a lâmina quebrou-se na casca nodosa, e a árvore ficou preta e morreu.
Ao levantar-se, ela chorou duas lágrimas da cor do âmbar, que me deu a beber.
-Viste-as? perguntou.
-Vi.
-E ao Ser que as trazia?
-Sim.
-Sabe que eu já fui uma delas, e que ele é meu pai. O que te dei manter-te-á vivo.
-E ele?
-Terá de esperar até assumir uma outra forma.

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